dos sonhos

Os mapas também nos cegam. É quando os cremos definitivos. A natureza mutante do corpo, sempre tão vasto e profundo, não se deixa acomodar em contornos finais e seguros: o corpo é e não é o Mundo. Sua substância é o tempo e é de sua essência o escoar incessante. Mas algo se retém. E se acumula – e é dessa matéria que são feitos os sonhos, nossos mapas mais legítimos. Porque, se todos os mapas são verdadeiros, e todos são, aqueles que nos traz o sonho guardam a excepcional característica de terem se libertado do fugidio instante e por isso nos servem de guia na escuridão e na cegueira, feitos mais para o espírito do que para a superfície imediata do corpo, a quem o presente nutre com a indiferença, a aflição e o êxtase. Só depois, quando isso se depurar em pérolas, virá o sonho, luz de luz que da luz prescinde.