do enleio

A geografia íntima é uma ciência inexata e espiritual. Seu objeto é o corpo, esse lugar ambíguo, atravessado por humores e fantasmas, feito de memória e carne amalgamados, mutante e único. De quem falamos quando dizemos “corpo” é a questão central da geografia íntima. Não é uma ciência de acadêmicos, mas de aventureiros, navegadores intrépidos ou distraídos, desses que se lançam ao mar com projetos cartográficos precisos ou simplesmente se deixam ir ao sabor de ventos, amores, correntes e marés. Os que querem conhecer, os que buscam, logo se surpreendem com a recortada extensão de sua ignorância: a cada pequena enseada, a beleza da paisagem, a riqueza de fauna e flora e tudo mais que convida ao êxtase quase os obriga à permanência. Os que se deixam ir acabam forçados pelo assombro a registrar com precisão crescente os objetos do seu gozo. O desafio de ambos é não ceder ao ímpeto de ficar que anima o amor. O enleio engendra continentes. Faz do vento, carne, e do tempo, história. O enleio cria os mapas em que o navegador inebriado há de viajar imóvel, em puro devaneio. Não fosse a eternidade, amor e morte seriam o mesmo.