das cicatrizes

Cicatrizes são ruínas. Elas se apagam com o tempo lentamente, até que delas persistam apenas silenciosos vestígios que servem para nos lembrar que o passado existe e que tudo se tornará passado, por mais doloroso e exuberante que agora nos pareça.

Não é pequena, portanto, a importância das cicatrizes. Pois, se por um lado é fácil descrer da existência do passado – o que nos permite sonsamente repeti-lo – por outro, nos é às vezes muito difícil aceitar – ou crer – que tudo passe.

Essa última evidência não nos deve convidar ao abandono, mas à conservação. Porque toda cicatriz é a lembrança já quase indelével de uma dor, devemos concluir que nenhuma cicatriz era de fato necessária ou inevitável. Enfim, toda cicatriz incomodamente nos argui: “Por que buscaste essa dor?”. Raramente sabemos a resposta. Mas, em compensação, da dor de fato não resta memória. O que infelizmente não estimula nossa prudência. Cicatrizes são ruínas, ambíguo convite a uma arqueologia impossível que pode desviar o navegador de seu compromisso cartográfico.