da tristeza

A tristeza nasce em algum lugar do coração e corre como um fio tênue e delicado até à garganta onde se avoluma e se bifurca, subindo com violência para o lado de dentro dos olhos, de tal modo que então o mundo todo passa a ser visto como que envolto numa espécie de névoa morna e úmida, sob a luz de um longo e infindável crepúsculo.

Do alto dos olhos, a tristeza pode se precipitar com energia estrondosa, capaz de abalar o corpo com tremores e alimentar os mares obscuros que o habitam. Mares que são as chamadas mágoas, que a geografia íntima consagra como acidentes geográficos extremamente perigosos. Não poucos navegadores aí se perderam para sempre. Por isso, a travessia vitoriosa das mágoas é aventura cantada em elegias épicas memoráveis, autênticos portulanos feitos de palavras.