da saudade II

Saudade é também um lugar, como já se disse em outro verbete. Um lugar que todos conhecem, mas nunca o mesmo lugar para todos. Por isso, são secretos os mapas que conduzem à Saudade. Secretos não por serem cobiçados: tudo que há na Saudade é ausência – e ninguém há de querer uma ausência que não lhe pertence. O segredo se dá porque a ausência dói: muitos navegadores afirmam que estar na Saudade é vislumbrar em vida o Purgatório. Por isso, por pudor ou por prudência, é preciso resguardar o caminho que leva à Saudade. Há mesmo quem preferisse esquecê-lo. Mas isso não é possível.

O segredo dos mapas contrasta com a abundância dos relatos. Sob a denominação genérica e algo imprópria de Nostalgia acumulam-se descrições da Saudade que permitem afirmar com alguma certeza que ela se divide em duas regiões: a Saudade do que foi e a Saudade do que poderia ter sido. Sabemos que, na primeira, é sempre possível alcançar algum consolo, sobretudo se em tardes cálidas de maio. Na segunda, no entanto, não há abrigo contra a chuva que nos castiga no labirinto em que por vontade nos confinamos e se multiplica em incessantes minúcias. Enfim, entre a Melancolia e a Loucura não são poucos os riscos que espreitam os navegadores na passagem obrigatória pela Saudade.