da dor

A dor é um fato – como o ar; como a pedra. Pedra feita de ar, a dor pesa, invisível. E cresce. Pode, por isso, nos afundar – seja como carga excessiva, seja obstáculo subestimado que de súbito nos rasga. A dor: incontáveis mapas querem ensinar a contorná-la. Inútil. Como imensos pedaços de gelo negro, ela erra pelas águas do corpo, adensando-as até quase a rigidez. O atraso que é capaz de provocar chega a dizimar de vergonha, desesperança ou melancolia tripulações inteiras – presumida origem dos navios-fantasmas, estranhas naves habitadas por “cadáveres adiados que procriam”, na precisa definição de um navegador português que as teria visto de perto. Inútil também morrer. Pedra feita de ar, a dor no ar se devolve ao nada se soubermos esperar – mesmo sem esperança. Essa sua única lição duradoura.