A falsidade da incerteza

Qual a sua opinião sobre o fato de muitos cientistas aceitarem a interpretação de Copenhague (7) para a Mecânica Quântica?

Essa interpretação é uma falácia. Baseia-se na premissa de que se uma ação intermediária não pode ser medida com exatidão, então não pode produzir-se com exatidão. É uma falácia porque na primeira parte da premissa a palavra exatidão é usada em sentido operacional, e na segunda parte é usada em sentido ontológico. Isso é errôneo, porque os dois campos não se relacionam.

Muito antes de Heisenberg (8) formular o Princípio da Incerteza, em 1927, e de dar-lhe essa interpretação anticausal, muitos físicos de renome, entre eles o próprio Heisenberg, já haviam rejeitado o princípio da causalidade em outros campos. O que aconteceu foi que, em vez de encontrarem na Ciência uma demonstração ou refutação da causalidade, o que encontraram foi uma maneira de recobrir de cientificismo a sua descrença na causalidade. Um disfarce como esse e uma demonstração científica são coisas bem diferentes.

Procurou-se uma aparência científica porque a mentalidade da cultura moderna está baseada no pragmatismo e no relativismo. Tal mentalidade busca recompensas imediatas e tenta ignorar as conseqüências a longo prazo (que inexoravelmente ocorrerão, pois há causalidade) das ações individuais. Para poder sustentar essa mentalidade é necessário adotar um ponto de vista segundo o qual as coisas parecem não ter coerência. A aparência de cientificismo que encobre a rejeição da causalidade é o sustentáculo dessa reivindicação pseudocultural de incoerência entre as coisas e as ações.

Em outras palavras, segundo essa perspectiva, a vida tem por fim passar por muitos momentos imediatamente gratificantes, sem que seja preciso pensar na relação entre uns momentos e outros, nem tampouco nas suas conseqüências. Dito de outro modo: deve-se ter em conta que a mentalidade atual está doente por causa do pecado original, como sempre esteve e sempre estará. Sejam quais forem os argumentos que usemos, o mundo continuará a manter uma certa mentalidade negativa diante dos argumentos filosóficos puros e da religiosidade sincera.
Pe. Stanley Jaki (Leia a entrevista completa)

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(7) A entrevistadora refere-se à interpretação da mecânica quântica formulada por Niels Bohr (1885-1962) e seus companheiros da Universidade de Copenhague. Uma das bases dessa interpretação é a idéia de que a observação de um experimento interfere nos seus resultados. A mecânica quântica estuda o movimento dos átomos e das partículas subatômicas.

(8) Werner Karl Heisenberg (1901-1976): físico alemão, recebeu o prêmio Nobel de Física em 1932 por suas contribuições à mecânica quântica. O seu Princípio da Incerteza postula que não se pode medir simultaneamente e com exatidão a posição e a velocidade de um átomo ou de uma partícula subatômica.

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 E, de fato, há um modelo quântico onde o Princípio da Incerteza é “resolvido” ou ignorado:

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