O caso Kant

Este artigo foi publicado na revista Permanência, # 286. Originalmente, o texto foi elaborado como uma palestra dada a um grupo de amigos católicos em março de 2017.

 

O objetivo desta conversa é apresentar um tema central do pensamento de Kant: as “formas da sensibilidade” que, na Crítica da Razão Pura, são abordadas na Estética Transcendental – “estética” aqui com o sentido de “gnosiologia” ou “teoria do conhecimento”.
Uma mínima compreensão desses conceitos decisivos do kantismo é essencial para entendermos os rumos do Modernismo – especialmente do que Dom Lourenço Fleichman chamou de “subjetivismo moderno” – e o quanto ele é incompatível com o Catolicismo, em geral, e com o tomismo, em particular.
Nossa conversa se dividirá em três partes.
Na primeira, vamos pensar juntos sobre o modo como pensamos, num exercício do que podemos chamar de “gnosiologia natural”.
Na segunda, veremos como Aristóteles e São Tomás sistematizaram essa “gnosiologia natural”.
E na terceira, veremos o quanto e como Kant se afasta dessa concepção, numa inversão que ele chamou “copernicana”, em referência a Copérnico, e que nós bem poderíamos chamar de demoníaca, por conta de tudo o que será perdido.

 

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Vamos começar então “pensando o pensamento”. Não é uma tarefa tão complicada, é apenas algo que não estamos acostumados a fazer, pela simples razão de o pensamento funcionar tão bem, de um modo tão natural, espontâneo e eficaz, que nunca nos ocorre pensar como ele funciona. Sabemos, por experiência, que ele funciona. E isso nos basta.
Para começar, eu vou pedir a vocês para pensar em um objeto muito simples: o clipe de papel.
Todos nós sabemos o que é um clipe. Imagino que ninguém terá dificuldade em concebê-lo. Acredito que todos já estejam aí com uma idéia do clipe na mente.
Sabemos que há do clipe uma variedade imensa de tamanhos, cores, matérias e formas.
Eu gostaria que vocês reparassem em uma característica muito especial dessa idéia do clipe que vocês têm na mente agora: o quanto ela é vaga, genérica. Eu diria mesmo, quase invisível, como um fantasma. Ela não tem cor, tamanho, um material específico. Pois é exatamente por isso que nela “cabem” todos os clipes possíveis. É como se houvesse um certo parentesco entre essa idéia do clipe e a idéia de infinito. Deixemos essa questão plantada num canto de nosso espírito e sigamos em frente
Enfim, guardem bem este ponto: na idéia que temos do clipe cabem todos os clipes possíveis. (2)
Agora vejam que curioso: houve um tempo em que o clipe não existia.
Ele só começou a existir a partir de 1899, quando dois homens patentearam o clipe ao mesmo tempo: o norueguês Johann Vaaler, que patenteou o clipe na Alemanha; e o americano William Middlebrook, que o patenteou nos Estados Unidos. E não só o clipe, mas também a máquina de fabricar clipes. Só por isso, nesta nossa conversa, vamos dar primazia a Mr. Middlebrook, para compreensível desgosto dos noruegueses, que têm em Johann Vaaler um herói e fazem do clipe um símbolo nacional. Durante a ocupação nazista da Noruega na segunda guerra mundial, usar um clipe na lapela era um signo de oposição e resistência que levou muita gente à prisão.
Para nós, o que importa é saber que o clipe não existiu sempre. Ele foi criado. Isto é, ele existiu primeiro como idéia na cabeça de alguém. Depois tornou-se um objeto material. E, finalmente, tornou-se idéia na mente de todos nós.
Então vamos guardar esse circuito: idéia criadora – coisa criada – idéia da coisa criada.
Acredito que seja possível dizer que a idéia da coisa criada é uma idéia conservadora, no sentido de que ela é a memória viva do objeto criado. Ela é obtida por abstração a partir de nossa experiência com a coisa criada.
No entanto, a idéia criadora obviamente não chega a alguém por abstração. Ela é como uma espécie de iluminação, intuição, inspiração que aparece como que do nada. Podemos dizer que a idéia original do clipe foi obtida por composição sem que isso comprometa sua originalidade: ninguém antes pensara no clipe ou num objeto com aquela forma para cumprir aquela determinada função que é a de manter juntas folhas soltas.
Mas certamente há uma relação entre a idéia criadora do clipe, a primeira idéia original, e a idéia que existe – mais ou menos precisa segundo o conhecimento que cada um tenha dele – na mente de cada um de nós. Isto é, a idéia que temos do clipe nos remete de modo mais ou menos imperfeito à idéia original.
Vamos complicar um pouco mais? Reparem que não é só pela forma, mas também pela finalidade que definimos o que é um clipe. A finalidade do clipe é juntar folhas de papel. Então se lhes mostro um grampo de cabelo, todos concordarão que o grampo não é um clipe, mas, ainda assim, pode ser usado improvisadamente para juntar papéis. Mas, e se lhes mostro o monumento ao clipe que existe na Noruega, uma estátua de sete metros em forma de clipe, e pergunto: “Isto é um clipe?”, a resposta será obviamente “não”, porque, apesar de ter a forma de um clipe, o monumento não serve para juntar papéis. Então vejam que forma e finalidade andam juntas, mas a finalidade tem precedência na definição das idéias e das coisas.

 

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Agora eu vou pedir que vocês pensem em outro objeto: a manga.
Dizem que existem mais de 1.500 tipos de manga. Eu conheço só uma meia dúzia delas, mas todas cabem nessa idéia que eu tenho de manga. Como na idéia do clipe cabem todos os clipes possíveis, na idéia de manga que tenho na mente também cabem todas as mangas possíveis.
Então é natural que nós apliquemos agora à manga o mesmo raciocínio que aplicamos ao clipe e nos perguntemos: “Quem criou a manga? Na mente de quem ela existiu primeiro?”
Reparem que com essa pergunta saltamos de repente do âmbito mais ou menos tranqüilo de uma “gnosiologia natural” para o “chiaro-oscuro” de uma “teologia natural”.
Só quando se trata de um ente da natureza é que percebemos com clareza que essa idéia, aparentemente quase vazia de tão genérica, também tem um caráter ontológico, no sentido de atribuirmos a ela uma relação imediata com a idéia original da coisa – ainda que seja mais fácil admiti-lo quando se trata do clipe do que quando se trata da manga.
Por isso é até possível dizer que a filosofia – ou ao menos uma filosofia realista – se funda nesta idéia que de um modo tão natural formamos imediatamente das coisas. Porque é daí que se constrói o conceito de verdade como correspondência. Ou como dirá São Tomás, seguindo Aristóteles: a verdade como adequação do intelecto à coisa.
E é exatamente por conta dessa relação de adequação que falamos em sujeito e objeto. Porque o sujeito é chamado de sujeito porque se sujeita – isto é, submete-se – ao objeto. Ele recebe – ou se preferirem um termo mais poético: acolhe – em seu espírito a imagem ou representação do objeto particular à sua frente e, nessa experiência que pode durar anos, vai abstraindo dele as características que lhe são absolutamente singulares e aquelas que lhe são próprias da espécie. Do mais geral ao mais específico, nada deve escapar ao sujeito atento.
Penso aqui tanto na relação médico/paciente quanto na relação amante/amado.
Ou seja, quanto maior a atenção que ele dedica ao objeto, maior será o conhecimento que ele tende a obter dele, tanto como espécie quanto como objeto singular.
Reparem que a modernidade inverteu esse conceito. Hoje se usa “sujeito” como sinônimo de “eu” e acreditamos que a “subjetividade” tem um papel decisivo na determinação da objetividade das coisas. É na verdade quase uma crença, quase uma superstição moderna, a idéia de que a realidade é uma projeção do sujeito.
Talvez seja um exagero dizer que Kant é o fundador dessa superstição chamada subjetivismo moderno. Há antecedentes modernos – Hume, Berkeley – e a própria possibilidade do conhecimento verdadeiro (ou do acesso humano à verdade das coisas) é uma questão que acompanha a filosofia desde sempre. Mas é inegável que Kant deu ao problema, não uma mera roupagem moderna, mas uma formulação inteiramente nova e original.
Antes de seguirmos, vale registrar alguns dados históricos:
Immanuel Kant nasceu em 1724 e morreu em 1804, aos 80 anos. Era de família luterana e pietista. O Pietismo foi uma espécie de Jansenismo protestante, profundamente puritano, cuja influência no pensamento de Kant não parece desprezível, como veremos.

 

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Para entendermos o que Kant fez é preciso aprofundar um pouco mais aquela nossa reflexão sobre o modo como pensamos.
Vamos ver o que Aristóteles e São Tomás fizeram dessa nossa percepção simples e natural da idéia ou essência das coisas, que chamei de “gnosiologia natural”.
Voltemos, pois, à pergunta incômoda: Quem criou a manga? Ou, dito de outro modo, em analogia ao clipe: quem primeiro pensou a manga?

 

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A primeira resposta a essa pergunta foi formulada por Platão, não em termos de “quem”, mas de “onde”.
Em Platão, essas Idéias são entes que existem de fato numa outra dimensão: o Mundo das Idéias.  Quem as terá criado, Platão não nos explica. E ainda que ele admita deuses – e mesmo um deus maior do que todos os outros – as Idéias têm uma existência autônoma.
Elas são eternas, imateriais e imprimem sua forma na matéria dando origem às coisas.
Tudo que existe no mundo sensível é, portanto, cópia de uma idéia que existe nesse mundo inteligível. Uma cópia infiel, decaída em perfeição.
As coisas decaem na Existência, decaem do mundo inteligível para o mundo sensível.
Para Platão, o mundo sensível tem pouco valor: ele, na verdade, nos ilude com sua beleza efêmera. O verdadeiro conhecimento está na contemplação do mundo inteligível, o mundo das idéias imutáveis, a que as coisas nos podem servir de acesso. O mundo sensível é então como uma escada para o mundo inteligível, uma escada que deve ser descartada tão logo alcancemos esse patamar mais alto.
Há como que uma distância entre as coisas e as idéias que são sua origem. A forma segue eterna, enquanto sua cópia degenera junto com a matéria que a compõe.
A crítica mais modesta que se pode fazer à concepção platônica é que ela é profundamente contra-intuitiva. Principalmente, porque carrega em si uma evidente desvalorização do mundo sensível. Aos olhos das pessoas comuns, o mundo não nos aparece como algo degradado, mas, ao contrário, impregnado de uma genuína beleza.

 

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Aristóteles foi o discípulo amado de Platão. Aristóteles não rejeita o platonismo, apenas discorda da existência de um Mundo das Idéias à parte do mundo sensível. Sua solução é muito mais engenhosa, porque sistematiza aquela nossa percepção natural.
Com quatro pares conceituais interdependentes – forma e matéria; ato e potência; causa e efeito; substância e acidente – Aristóteles vai resolver o problema da relação lógico-ontológica entre as idéias e as coisas.
Aristóteles concorda com Platão que todas as coisas resultam de uma composição de matéria e forma. E que a idéia que temos das coisas corresponde à forma que as define como tal, como exemplar de uma espécie. Onde eles se afastam é na resposta à questão seguinte: onde estão as formas?
Platão, como vimos, afirmava a existência de um mundo de formas, distinto do mundo sensível. Aristóteles, ao contrário, dirá que a forma das coisas está nas próprias coisas – o que soa até como uma obviedade para nós hoje. E é essa exatamente a beleza do pensamento aristotélico: sua simplicidade altamente intuitiva.
Voltemos à nossa manga.
Nós dissemos que na idéia da manga estão contidas todas as mangas possíveis – e até por isso ela é uma idéia tão vaga.
E como chegamos a essa idéia? Pela abstração das qualidades sensíveis dos objetos particulares. Ou seja: passamos do particular ao universal e nesse diálogo vamos construindo nosso conhecimento do mundo.
O mesmo vale para a mangueira que vemos lá fora. Ela também pode ser reduzida à idéia genérica de “árvore”. Uma idéia que eu posso desenhar no ar e todos a reconhecerão imediatamente. Assim como outras tantas idéias que podem ser reduzidas a formas simples, esquemáticas e que aparecem das pinturas rupestres aos primeiros desenhos de nossas crianças. O que nos leva a crer que se trata de uma percepção intuitiva de algo que está de fato nas coisas, e não de um mero convencionalismo.
É mais ou menos isso que Aristóteles vai perceber e sistematizar. Matéria e forma estão nas coisas. Tomadas em separado matéria e forma são inapreensíveis. Só apreendemos o composto que são já as coisas realmente existentes.
O par forma/matéria dá conta então da dimensão espacial das coisas existentes ao nosso redor. Mas como explicar a mudança, isto é, como dar conta da dimensão temporal delas? Pela introdução do par ato/potência, o correlato temporal de forma/matéria.
O composto forma/matéria é dotado de uma potencialidade de ser específica de sua espécie que pode ser atualizada por causas externas adequadas.
Tomemos por analogia a semente da mangueira.
Pensem na semente da mangueira, mas agora já não como idéia, mas como a imagem de uma semente singular, real que infelizmente não temos aqui para passar de mão em mão, para que todos a pudessem ver, sentir, tocar.
Portanto, mais do que simplesmente pensar uma semente de manga genérica, estou pedindo a vocês para imaginar uma semente de manga, recorrendo à memória de experiências passadas. Supondo, claro, que aqui todos já chuparam mangas até só restar o caroço.
Vocês lembram que, ainda há pouco, quando pensamos o clipe e a manga, dissemos que aquela idéia continha de uma maneira um tanto vaga e fantasmal todas os clipes e mangas possíveis.
Agora percebam que na semente da mangueira estão contidas potencialmente todas as mangueiras possíveis.
Potencialmente.
Para que essa potencialidade se atualize, isto é, para que essa semente venha a ser mangueira, ela depende da realização de uma série de condições que, por sua vez, quanto mais adequadamente satisfeitas, mais assegurarão a qualidade da mangueira obtida e de seus frutos.
Ou seja: para explicar que a forma está na própria coisa e não em alguma outra dimensão, Aristóteles introduz um novo par conceitual correlato ao par “forma e matéria”: o par “ato e potência”. De tal modo que o ato está para a forma assim como a potência está para a matéria.
É a idéia de potência se atualizando no tempo e no espaço que explica para Aristóteles a mudança que é a expressão própria da vida das criaturas.
Falta ainda um par conceitual para fechar a abordagem aristotélica: a noção de causa e efeito.
Pois, para que essa potência se atualize, é preciso uma causa – no caso da mangueira, um conjunto de causas muito bem definido.
Vocês certamente se lembrarão da parábola do semeador, presente nos evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus.
É preciso que a semente seja plantada, regada, cuidada. Desse modo, as potências vão sendo atualizadas, até que a semente se torne uma mangueira e assim permaneça. Quem já fez germinar uma semente e dela nascer uma planta, sabe exatamente do que estou falando.
A percepção de que tudo tem uma causa é algo óbvio para todos nós. Tudo tem causa e conseqüência, tudo é fim e começo de algo.
Vamos dar mais um passo, agora em direção à origem dessa idéia, que é a forma, a qual, por abstração, percebemos existir em todas coisas.
Bom, se tudo tem uma causa, se formos remontando de causa em causa é uma exigência lógica que em algum momento se diga: “Isto tem de parar em algum ponto”. Onde? Numa causa não causada. Essa causa não causada é então a causa primeira de tudo o mais.
Se é incausada é, portanto, incriada. Se ela é incriada ela é uma causa pura, ou seja, nela não há traço de potência. Portanto, é ato puro. O que significa dizer que é, por exigência lógica, incessante e sempre atual. Logo, se a causa primeira cessasse de ser, tudo mais cessaria de ser imediatamente.
Ou seja: a Causa Primeira não é só criação, mas também conservação de tudo.
A Causa Primeira é, portanto, origem e fonte de todas as coisas.
O entendimento dessa Causa Primeira como Deus é o resultado de toda uma teologia que já está prefigurada no Evangelho de João.
É, portanto, a Ele que nos remetem as idéias que abstraímos das coisas. Como nos diz São Paulo: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras” (1Rom 1, 20).
Ou seja, o mundo que enxergamos é apenas o traço mais facilmente acessível do esplendor divino. O mundo é como uma porta aberta para Deus.
As coisas, o mundo, tudo que existe são como intermediários entre o Homem e Deus. É belíssimo perceber que no Gênesis, Adão é feito do barro, como uma espécie de síntese da Criação. E depois é chamado por Deus para junto com Ele nomear todas as coisas. Então essa relação de verdade, de intimidade entre a mente humana e o mundo, entre o Homem e a Criação é uma verdade profundíssima, que nos obriga a um vigoroso realismo.

 

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Chegamos agora à terceira e última parte desta conversa: Kant.
O que fará Kant? Kant vai negar tudo isso. Ou para ser mais exato, vai inverter tudo isso.
Por analogia à inversão produzida pelo sistema heliocêntrico de Copérnico, que tira a Terra e coloca o Sol no centro do sistema, a auto-intitulada “revolução copernicana” de Kant irá tirar o objeto do “centro”, e colocar no lugar o homem, mas já não mais como sujeito, ao menos não no sentido clássico de “espírito submetido ao objeto”, como dissemos no começo.
De Kant em diante, o sujeito não está mais sujeito a nada. Ao contrário, é ele quem sujeita os objetos a uma forma determinada, como já veremos.
Para usar uma terminologia moderna, talvez estranha a Aristóteles e São Tomás, não sei, mas contra a qual eles não levantariam objeção, presumo, as coisas ao nosso redor são entidades espaço-temporais.
Quando falamos de ato e potência, falamos de potências sendo atualizadas no tempo e no espaço. Tempo e espaço são, portanto, propriedades das coisas e do mundo. Isso nos parece a todos inegável. Essa será a originalidade de Kant: negar o inegável ao senso comum e tentar sistematizá-lo em um sistema.
Kant dirá que as noções de espaço e de tempo não estão fora de nós, como propriedades do mundo e das coisas criadas, mas dentro de nós: são formas de nossa sensibilidade.
Assim, quando nossos sentidos entram em contato com as coisas, imediatamente esses dados sensíveis são formatados espaço-temporalmente pela sensibilidade e ganham essa aparência tridimensionalizada que elas parecem ter em nossa mente. Mas em nossa mente apenas.
Isso é o mesmo que dizer que as imagens imediatas que temos das coisas não registram qualidades reais de objetos singulares, e por conseguinte, tampouco as idéias são abstrações que apontam para a essência real dessas coisas, mas meras representações mentais, sem nenhuma conexão com os objetos em si.
Porque na verdade – para Kant – isso que vemos não é a “coisa em si”, mas a representação mental que fazemos dela. Representação que não temos meios de saber se correspondem ou o quanto correspondem às coisas em si. É por isso, ao que nos aparece, que Kant irá chamá-las de fenômeno e não de realidade.
Qual a conseqüência? De cara, já não podemos falar em essência, idéia ou forma obtida por abstração. Ou melhor, até podemos, mas essa idéia ou essência já não tem qualquer relação com a coisa em si. Ou seja, não é propriamente uma essência no sentido ontológico do termo. É um mero esquema mental.
Portanto, já não temos mais, como sempre pensáramos ter, acesso, por abstração, à essência das coisas criadas por Deus e, desse modo, ao próprio Deus, indiretamente.
Ao contrário, estamos cercados por uma couraça fenomênica que nos separa irremediavelmente de Deus e do mundo. E que ironicamente nós próprios produzimos, mais ou menos como no nominalismo do século XIV.
Sola fides seria nossa única segurança, nesse caso. Uma fé cega e sem fundamento: o pietismo familiar parece ter deixado sua marca na filosofia de Kant.
No prefácio à “Crítica da Razão Pura”, Kant afirma ter sido obrigado a negar o conhecimento de Deus de modo a dar lugar à fé. Não creio que haja na frase algum cinismo oculto. Mas é certo que o kantismo abriu caminho para o ceticismo, a despeito de toda a influência na teologia moderna que serviu de fundamento ao Concílio Vaticano II.
Pesquisando para esta conversa, encontrei um texto de Peter Byrne (3), em que ele escreve que, “em contraste com o poder destrutivo de Robespierre, que matou apenas uma família real, Kant produziu um terrorismo muito maior: Kant matou Deus”.
Sim, pois nossas representações do mundo, em Kant, já não são um elo de comunicação com o Criador, a Causa Primeira, mas a prova final do nosso isolamento ontológico: o que os homens partilham é, ao fim das contas, uma ilusão coletiva.
A analogia com a Caverna de Platão é inevitável.
O mundo torna-se um hospício calmo porque todos compartilham do mesmo delírio. Ou uma colônia de daltônicos. Ou um cinema, onde todos assistem ao mesmo filme como se fosse a realidade.
É evidente que num tal sistema a noção de verdade é altamente instável; ela existe, mas está destituída de qualquer valor ontológico ou metafisico. É uma verdade fundada numa espécie de convencionalismo biológico, digamos assim.
É, enfim, nesse sentido, e só nesse sentido, que se pode compreender por que, em um ambiente kantiano, a verdade é relativa. Ela é relativa aos sujeitos e nem se pode dizer que ela sequer exista nesse contexto de vazio ontológico. A verdade facilmente se reduz a narrativas, pontos de vista, opiniões – como tanto se ouve dizer cotidianamente. E por mais que tentemos depois amarrar os sujeitos em “imperativos categóricos”, nada, a não ser a força bruta, será capaz de ordenar esse mundo kantianamente determinado.
A impressão que tenho é que, a partir do kantismo – ou, se preferirem, do subjetivismo moderno – o sujeito, ao assumir o lugar do objeto, coisificou-se. E o objeto, ao tomar o lugar do sujeito, humanizou-se – como farsa.
Acredito que se poderia mesmo dizer que, a partir de Kant, os objetos artificiais idealizados pela mente humana, como o clipe, por exemplo, tornaram-se até mais “verdadeiros” ou “acessíveis” do que as coisas naturais, como a manga, por exemplo.
Porque, ao passo que das coisas naturais não temos mais como atribuir à essência que delas abstraímos um valor ontológico real, já das coisas artificiais, criadas pelo homem, como o clipe, exatamente por se tratar de objetos idealizados pelo homem, posso dizer que lhes conheço integralmente a origem, a essência ou a forma, pois sua idéia primeira não resulta de nenhum contato sensível ao qual se adicionaram as formas espaço-temporais da sensibilidade. É uma idéia “pura” que os homens partilham entre si por intermédio das coisas artificialmente criadas.
Então, se os objetos artificiais têm mais valor de verdade do que o mundo das coisas naturais, é obvio que aqueles passarão a ter mais valor e interesse do que estes.
Enfim, é como se literalmente criássemos uma “segunda” Natureza – destituída de essência, artificial, humanizada.
Por outro lado ainda, se essas idéias que temos das coisas são meras representações de fenômenos, sem conexão direta com o mundo que lhes garanta a condição de verdade, então parecem suficientemente inconsistentes para que sobre elas se exerça a influência ou a interferência de outras mentes ou de produções humanas deliberadamente criadas para esse fim.
Pois, se tudo se reduz à ilusão, a questão tentadora será “como produzir ilusão?”.
Daí também a obsessão moderna pela educação. Óbvio: é suposto que o bombardeio de dados sensíveis com finalidades pré-determinadas será capaz de formar e direcionar os seres humanos para onde a “vontade coletiva” – um dos nomes que se pode dar à couraça fenomenológica kantiana – pretenda levá-los.
Não sei o que me responderia um kantiano a isto que é só uma especulação improvisada numa conversa entre amigos, mas por aí, já podemos antever as distorções que um tal subjetivismo é capaz de produzir.
Em contraponto, o que nos oferece a filosofia realista de São Tomás?
Segundo Joseph Pieper (4), dizer que tudo é criatura, como São Tomás, é dizer que nada é causa de si mesmo. E isso é fácil de constatar: se fôssemos causa de nós mesmos, isto é, se nos fosse possível tirar a nós próprios do nada, teríamos poder suficiente para nos fazer imortais. Mas ainda que pudéssemos menos, se fôssemos causa de nós mesmos, saberíamos necessariamente o que somos, determinaríamos nosso fim, em todos os sentidos. É, portanto, evidente que a causa de nosso ser não somos nós mesmos. Por outro lado, se não somos causa de nossa criação, tampouco, por conseqüência, somos causa de nossa conservação no ser – ou do contrário, novamente, nos garantiríamos a imortalidade.
Então se somos criaturas criadas e conservadas no ser por Deus, logo todas as criaturas estão vinculadas ao seu Criador por um laço ontológico de verdade e realidade. Usando da mesma analogia de Pieper em seu texto, se o clipe existe na mente de um homem antes de se tornar um objeto real, do mesmo modo, todas as coisas existem em Deus como idéia.
Por isso, São Tomás dizia, como lembra Pieper, que não temos a capacidade intelectual e espiritual para esgotar a verdade essencial sequer de uma mosca. Portanto, a verdade última ou total de qualquer criatura nos é inacessível. Mas não é uma inacessibilidade como a pretendida por Kant, que é uma inacessibilidade negativa. No caso de São Tomás, trata-se de inacessibilidade positiva: as coisas são verdadeiros abismos de verdade, uma verdade inesgotável e só abarcável em sua totalidade pela graça concedida.
E aqui, para encerrar, voltamos ao começo de nossa conversa, àquela idéia que temos das coisas, vaga e genérica o bastante para abarcar virtualmente todos os exemplares possíveis de uma espécie – seja uma manga ou um clipe.
Na simples idéia que temos de cada coisa podemos perceber essa presença – ainda que imperfeita, ou tão perfeita quanto é possível ao humano – do infinito como condição mesma do próprio pensamento.

 

 

Notas ____________________________________
(1) Sobre o título, me pergunto se a estrutura da filosofia de Kant não é a mesma da psicose: o confinamento interno, a impossibilidade de empatia com o mundo exterior, a elaboração da própria doença como sistema para retornar à realidade, submetendo-a. Solipsismo, couraça fenomênica, imperativo categórico: não haveria nessa trajetória o esboço de uma patologia?
(2) Toda idéia é também o indício da presença da unidade na multiplicidade.
(3) “In contrast to the destructive power of Robespierre, who merely killed a royal family, Kant produces the greater terrorism. Kant killed Go” Peter Byrne, Kant on God, Ashgate.
(4) Joseph Pieper, Luz Inabarcável – o Elemento Negativo na Filosofia de Tomás de Aquino, trad. Gabrielle Greggersen. (http://www.hottopos.com/convenit/jp1.htm)

A falsidade da incerteza

Qual a sua opinião sobre o fato de muitos cientistas aceitarem a interpretação de Copenhague (7) para a Mecânica Quântica?

Essa interpretação é uma falácia. Baseia-se na premissa de que se uma ação intermediária não pode ser medida com exatidão, então não pode produzir-se com exatidão. É uma falácia porque na primeira parte da premissa a palavra exatidão é usada em sentido operacional, e na segunda parte é usada em sentido ontológico. Isso é errôneo, porque os dois campos não se relacionam.

Muito antes de Heisenberg (8) formular o Princípio da Incerteza, em 1927, e de dar-lhe essa interpretação anticausal, muitos físicos de renome, entre eles o próprio Heisenberg, já haviam rejeitado o princípio da causalidade em outros campos. O que aconteceu foi que, em vez de encontrarem na Ciência uma demonstração ou refutação da causalidade, o que encontraram foi uma maneira de recobrir de cientificismo a sua descrença na causalidade. Um disfarce como esse e uma demonstração científica são coisas bem diferentes.

Procurou-se uma aparência científica porque a mentalidade da cultura moderna está baseada no pragmatismo e no relativismo. Tal mentalidade busca recompensas imediatas e tenta ignorar as conseqüências a longo prazo (que inexoravelmente ocorrerão, pois há causalidade) das ações individuais. Para poder sustentar essa mentalidade é necessário adotar um ponto de vista segundo o qual as coisas parecem não ter coerência. A aparência de cientificismo que encobre a rejeição da causalidade é o sustentáculo dessa reivindicação pseudocultural de incoerência entre as coisas e as ações.

Em outras palavras, segundo essa perspectiva, a vida tem por fim passar por muitos momentos imediatamente gratificantes, sem que seja preciso pensar na relação entre uns momentos e outros, nem tampouco nas suas conseqüências. Dito de outro modo: deve-se ter em conta que a mentalidade atual está doente por causa do pecado original, como sempre esteve e sempre estará. Sejam quais forem os argumentos que usemos, o mundo continuará a manter uma certa mentalidade negativa diante dos argumentos filosóficos puros e da religiosidade sincera.
Pe. Stanley Jaki (Leia a entrevista completa)

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(7) A entrevistadora refere-se à interpretação da mecânica quântica formulada por Niels Bohr (1885-1962) e seus companheiros da Universidade de Copenhague. Uma das bases dessa interpretação é a idéia de que a observação de um experimento interfere nos seus resultados. A mecânica quântica estuda o movimento dos átomos e das partículas subatômicas.

(8) Werner Karl Heisenberg (1901-1976): físico alemão, recebeu o prêmio Nobel de Física em 1932 por suas contribuições à mecânica quântica. O seu Princípio da Incerteza postula que não se pode medir simultaneamente e com exatidão a posição e a velocidade de um átomo ou de uma partícula subatômica.

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 E, de fato, há um modelo quântico onde o Princípio da Incerteza é “resolvido” ou ignorado:

Sobre os transcendentais

“Though he doesn’t put it this way, what Polanyi is pointing out here is that modern scientists are implicitly committed to the reality of truth as truth is understood within the doctrine of the transcendentals – that is to say, to truth conceived of as being or reality in its relation to an intellect. The reason they prefer terms like “simplicity” and “economy” is that they tend also to be committed to the assumption that intellect is a highly derivative phenomenon – a mere byproduct of evolutionary history that appears very late in the game as it were – and thus ought not to enter into our characterization of reality at the most fundamental level. And the trouble is that when this reference to the intellect is deleted, it is no longer clear why simplicity and the like ought to be criteria of theory choice.
Keats was right to say that “beauty is truth, truth beauty,” but wrong to follow up this claim with the further assertion that “that is all ye know on earth, and all ye need to know.” For we do need to know something else – namely the traditional, Scholastic metaphysics that makes the first claim intelligible.”
Edward Feser (texto completo)

Da sabedoria ordinária

“Não há força maior que encontrar nos pontos mais essenciais, em toda a sua luz, as afirmações mais comuns da humanidade. Elas permanecem como fórmulas vãs e banais se não saem do fundo de nós mesmos como se fôssemos nós mesmos quem as tivesse inventado. Deve parecer-nos, ao mesmo tempo, que nós sempre as soubemos e que as encontramos pela primeira vez. Mas é estéril começar por tomá-las de fora acreditando que é possível em seguida reavivá-las dando-lhes uma espécie de calor emprestado.”
Louis Lavelle,  Regras para a vida cotidiana